Coronavírus: “pessoas com deficiência não estão recebendo apoio do poder público”, afirma presidente da AAPPE

Contribuir para a melhoria da qualidade de vida das pessoas com deficiência em Alagoas é a principal missão da Associação dos Amigos e Pais de Pessoas Especiais (AAPPE). No entanto, nos últimos dias, esta missão vem trazendo insegurança para a instituição, visto que o maior público atendido pela AAPPE faz parte do grupo de pessoas que está mais suscetível ou vulnerável à doença Covid-19, causada pelo novo coronavírus.

Através de convênio com o SUS e com a Secretaria de Estado da Saúde de Alagoas (Sesau/AL), a AAPPE oferece o atendimento para as reabilitações física, intelectual e auditiva em sete unidades, distribuídas na capital e no interior do Estado. São quatro unidades em Maceió; duas no município de Santana do Ipanema, com a unidade Sertão e uma na cidade de Penedo, com a unidade Baixo São Francisco.

Evasão nos atendimentos

No entanto, seguindo a recomendação do Ministério da Saúde (MS), muitos usuários da instituição estão mantendo-se em isolamento doméstico. Com receio de entrar para a lista de casos infectados pelo novo coronavírus, os familiares de usuários e os próprios usuários acabam faltando ao atendimento multidisciplinar desenvolvido com eles pela instituição.

A coordenadora do Centro Especializado em Reabilitação (CER) da AAPPE Maceió, Mariana Marques, falou sobre a mudança na rotina na unidade com a evolução do Covid-19 no Estado. “A gente não pode deixar de orientar o paciente que está no grupo de risco a não vir. Assumindo a nossa responsabilidade e compromisso com a sociedade, estamos liberando esses usuários e, inclusive, estamos orientando que eles não venham, todo os usuários hipertensos, diabéticos, as nossas crianças, os que tem problemas respiratórios. Isso, obviamente, diminui a nossa amostra de usuários. Além de que os próprios usuários, diante da situação, não estão vindo. Mesmo os jovens e adultos, que teoricamente não estão no grupo de risco, eles também não estão vindo, por conta própria”, contou.

Em outros casos, os usuários que residem no interior do Estado não conseguem se dirigir até às unidades de atendimento da AAPPE, pois os veículos de transporte disponibilizados pelo município em que moram para realização das consultas na instituição não estão sendo liberados, também em prevenção à Covid-19.

Consequências

Em um outro cenário, a instituição se vê em um impasse, visto que possui diversos usuários idosos com deficiência, usuários com condições genéticas e neurológicas delicadas, restrições físicas ou dificuldades de comunicação e locomoção, e que precisam de cuidados e atendimentos específicos. E, mesmo assim, a AAPPE está impedida de realizar a liberação desse público para o isolamento doméstico, onde poderiam manter-se mais seguros contra a contaminação do vírus.

Se decidir pela liberação e suspensão dos atendimentos de reabilitação, a instituição será penalizada com o corte no repasse dos recursos, já que o Ministério da Saúde ainda não se posicionou sobre a condição e a situação das pessoas com deficiência em meio à disseminação da Covid-19 no País.

Mariana Marques explicou também que em algumas unidades da instituição, o repasse de recurso ocorre a partir dos atendimentos que são realizados. No entanto, com a ausência dos usuários, em razão da prevenção ao coronavírus, o pagamento dos funcionários da instituição fica comprometido. “Na nossa unidade no bairro do Farol, em Maceió, o trabalho acontece por produção. Então, a gente não vai bater a meta lá. Deveria ficar garantido o repasse independente dessas metas. Nós gostaríamos de liberar todos os usuários e colaboradores, porém se fizermos isso, de forma independente, a AAPPE corre o risco de não receber o repasse da secretaria e, consequentemente, não teria como pagar os seus funcionários”, explicou a coordenadora do CER.

“Os funcionários estão todos temerosos, porque os filhos já estão em quarentena, porque foram liberados das escolas. Mas os pais vêm trabalhar, correndo o risco de contaminação e disseminar ainda mais o vírus”, lamentou Mariana.

A AAPPE reforçou que ao evitar a exposição de pessoas com deficiência e em condições especiais, já vulneráveis, de saúde, evita também a propagação do coronavírus, não colocando seus usuários em risco, consequentemente, nem a sociedade. A associação entende a vulnerabilidade de locomoção e dos riscos, possivelmente letais para o público que atende, diante do grau de risco do Covid-19.

Silêncio do poder público

A presidente da AAPPE, Iraê Cardoso, expressou sua preocupação quanto a falta de assistência e o silêncio do Governo Federal em relação às pessoas com deficiência em meio à evolução da Covid-19. “Infelizmente, a Secretaria Municipal não está autorizando que a instituição suspenda os atendimentos para este público. Nós temos uma equipe imensa de terapeutas e médicos para pagar e temos que produzir, temos que atender, mas como vamos fazer isso se os próprios usuários não estão vindo para se proteger, para se resguardar. A campanha do Ministério da Saúde é clara e diz para que as pessoas fiquem em casa. É isto que eles estão fazendo”, explicou.

Iraê questionou o posicionamento do poder público quanto ao suporte às pessoas com deficiência. “Nós estamos falando de uma coisa que está afetando o mundo. O governo já informou que serão penalizados quem não seguir as orientações do Ministério da Saúde. Então, eu quero saber o que é que a Coordenação Nacional da Pessoa com Deficiência e o que o Ministério da Saúde vão fazer com as pessoas com deficiência, esse público precisa ainda mais de atenção e cuidados”, disse ela.

Segundo a presidente da AAPPE, na última reunião realizada pelo Conselho Municipal da Saúde foi repassado que ainda não há motivos para preocupação. “Não é isso que o ministro Mandetta está falando não. O governo tem que se posicionar. O Ministério da Saúde tem que se posicionar em relação às pessoas com deficiência e ao programa do CER, porque é um programa federal, não é municipal”, declarou.

Iraê ressaltou ainda que as pessoas com deficiência representam uma grande parcela da população brasileira, o que, para ela, neste momento é preocupante, chamando atenção para as consequências do coronavírus, que podem ser ainda maiores caso atinja esse grupo mais vulnerável e suscetível à contaminação.

De acordo com o último Censo Demográfico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 45,6 milhões de brasileiros, cerca de 24% da população, possuem algum tipo de deficiência, seja ela visual, auditiva, motora ou mental/intelectual.

 “Eu estou em um impasse entre proteger agora as pessoas com deficiência e a Secretaria de Saúde me dizendo que não irá realizar o repasse, dinheiro que eu uso para pagar os colaboradores, caso suspenda oficialmente os atendimentos”, concluiu Iraê Cardoso.

Atendimento multidisciplinar

Na AAPPE, o paciente é acompanhado por uma equipe multidisciplinar, com fisioterapeuta, fonoaudiólogo, terapeuta ocupacional, psicólogo, nutricionista, enfermeiro, assistência social, entre outros profissionais. O usuário da instituição tem acesso ainda às consultas médicas especializadas de clínica geral, neurologia, neuropediatria, otorrinolaringologia, pediatria e psiquiatria, tudo de forma gratuita.

18 de março de 2020.

Fonte: Ascom AAPPE/IRES