Com atuação decisiva na consolidação de políticas de inclusão em Alagoas, a Associação dos Amigos e Pais de Pessoas Especiais (AAPPE) e o Instituto Bilíngue de Qualificação e Referência em Surdez (IRES) marcam o Dia Nacional da Língua Brasileira de Sinais (Libras), celebrado nesta sexta-feira,24 de abril, destacando o pioneirismo do estado na institucionalização da Libras no Brasil e apontando a permanência de desafios estruturais que ainda limitam o acesso de crianças surdas à linguagem e à educação na primeira infância.
Alagoas ocupa posição de destaque nesse processo. Antes mesmo da regulamentação nacional, o estado foi um dos primeiros do país a reconhecer oficialmente a Língua Brasileira de Sinais, por meio da Lei Estadual nº 6.060/1998 , uma conquista impulsionada pela AAPPE e lideranças como Iraê Cardoso, superintendente da entidade. O avanço antecipou diretrizes de inclusão, contribuiu para a formação de profissionais e ampliou o acesso à Libras no território alagoano, criando bases que hoje sustentam iniciativas como o IRES, primeiro instituto bilíngue do Norte e Nordeste voltado à educação de pessoas surdas,além da oferta de cursos de Libras e projetos educacionais de inclusão.
Apesar dos avanços históricos, os dados revelam um cenário que ainda exige atenção. Embora o Brasil tenha cerca de 2,6 milhões de pessoas surdas, o desafio começa na base: em Alagoas, estima-se que apenas 8% das crianças surdas estejam inseridas no ambiente escolar. Muitas chegam à escola sem uma língua estruturada, o que compromete o desenvolvimento linguístico, cognitivo e social. “A falta de profissionais capacitados em Libras, especialmente nas áreas da educação e da saúde, ainda é uma realidade, e a inclusão, em muitos casos, permanece restrita ao papel. A Libras, reconhecida como meio legal de comunicação da comunidade surda, é mais do que uma ferramenta, é o que garante acesso ao aprendizado, à autonomia e à cidadania. Sem ela, milhares de crianças crescem enfrentando barreiras que impactam toda a vida”, afirma Iraê Cardoso, superintendente da AAPPE.
No IRES, a inclusão é tratada como prática cotidiana. A instituição atua com ensino bilíngue, formação de intérpretes e oferta de cursos de Libras voltados à comunidade, além de profissionais da educação e da saúde. Um dos diferenciais é o fortalecimento do protagonismo de pessoas surdas em espaços de formação e atuação profissional.
Entre os destaques estão a pedagoga surda Isabel Alvim e a professora de Educação Física Larissa Oliveira, que representam uma geração que rompe barreiras e ocupa espaços com autonomia e qualificação. “A Libras é a nossa voz, nossa identidade. Quando temos acesso à nossa língua desde cedo, conseguimos aprender, nos desenvolver e ocupar nosso lugar no mundo”, afirma Isabel.
Creche Bilíngue
Diante dos desafios na primeira infância, o IRES já desenvolveu um projeto estruturado de creche bilíngue (Libras e português), voltado ao atendimento de crianças surdas desde os primeiros anos de vida — etapa decisiva para o desenvolvimento. A proposta, construída com base na experiência técnica da instituição, apresenta uma solução concreta para enfrentar a exclusão educacional precoce. Hoje, o principal entrave para sua implementação é a falta de incentivo e de recursos para viabilizar a iniciativa em escala.
“Quando a criança surda não tem acesso à Libras no início da vida, ela perde oportunidades fundamentais de desenvolvimento. A creche bilíngue é sobre garantir futuro, autonomia e dignidade”, reforça Isabel Alvim.
Para a superintendente da AAPPE, Iraê Cardoso, o momento é de transformar conhecimento acumulado em política pública efetiva. “Alagoas teve coragem de dar passos importantes antes mesmo da legislação nacional, e isso só foi possível com mobilização e compromisso. Hoje, temos experiência, temos metodologia e temos soluções construídas. O que precisamos é garantir as condições para que essas iniciativas avancem e alcancem quem mais precisa”, destaca.
Mais do que uma data simbólica, o Dia Nacional da Libras evidencia uma agenda que ainda exige prioridade: garantir o direito à linguagem desde a primeira infância como base para qualquer política de inclusão. Em um estado que foi pioneiro no reconhecimento da Libras, o desafio agora é transformar esse legado em acesso universal, assegurando que nenhuma criança surda seja privada do direito de se comunicar, aprender e se desenvolver plenamente.“Falar de Libras é falar de direito à comunicação. E sem comunicação, não existe inclusão de verdade”, pontua Larissa Oliveira, professora do IRES.